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Histórias de Inês, Dora, Derruchette e Amélia
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Apresentamos aqui, quatro mulheres especiais que representam as características Angélicas e Humanas da Mulher Ideal, do ponto de vista do homem. As características que encantam e cativam os homens e que deveríamos imitar!
INÊS
Inês representa o lado Angélico de nosso ideal, o que inspira adoração. David Copperfield conheceu Inês na infância e a adorou desde o momento em que a contemplou pela primeira vez.
“Sr. Wickfield (o pai de Inês) bateu em uma porta em um canto da parede de painéis, e uma menina da minha idade rapidamente saiu e o beijou. Em seu rosto, vi imediatamente a expressão plácida e doce da senhora cujo retrato tinha olhado para mim lá embaixo (sua mãe). Parecia à minha imaginação como se o retrato tivesse crescido e se tornado uma mulher e o original permanecesse uma criança. Embora seu rosto estivesse bem radiante e feliz, havia uma tranquilidade sobre ele e sobre ela – um espírito calmo, bom, quieto – que eu nunca esqueci; que eu nunca vou esquecer. ‘Esta é minha pequena governanta, minha filha Inês’ – disse Wickfield. Quando ouvi como ele disse isso e vi como ele segurou a sua mão, supus qual era a única razão da vida dele. Ela tinha uma pequena cesta pendurada ao seu lado com as chaves dentro e parecia tão calma e tão discreta como uma governanta  
que a velha casa poderia ter. Ela ouvia o pai, enquanto ele lhe falava sobre mim, com um rosto agradável. E quando ele concluiu, propôs a minha tia que subíssemos para ver meu quarto. Todos nós fomos juntos, ela adiante de nós. Era um glorioso quarto antigo com mais vigas de carvalho e vidraças em losango; e a larga balaústra de maneira que ia até em cima.
“Não consigo lembrar onde ou quando, em minha infância, eu tinha visto uma janela de vitral em uma igreja. Nem me lembro de seu tema. Mas sei que quando a vi virar-se na solene luz da velha escada e esperar por mim lá em cima, pensei naquela janela; e sempre associei algo de seu brilho tranquilo com Inês Wickfield depois disso”.
David e Inês se tornaram amigos íntimos. Ela lhe deu conforto, empatia, verdadeira compreensão e companheirismo. Ele escreve: “Parece que no amor, na alegria, na tristeza, na esperança ou no desapontamento, em todas as emoções, meu coração se voltava naturalmente para ela e encontrava seu refúgio e melhor amiga”.
Inês sempre teve uma influência sagrada e tranquila sobre David. Certa vez, quando estava sob grande pressão e tensão, ele disse:
“De alguma maneira, ao escrever a Inês numa bela noite ao lado de minha janela aberta, a lembrança de seus olhos claros e calmos e de seu rosto meigo chegou me roubando de mim e derramou uma influência tão tranquila na pressa e agitação em que vinha vivendo ultimamente que me comovi às lágrimas”.
Apesar de ter conhecido Inês desde a infância, de tê-la adorado desde a primeira vez que a viu e sentir ser ela a única pessoa que podia lhe dar verdadeira compreensão e companheirismo, ele se apaixona loucamente não por Inês, mas por Dora.
DORA
Dora representa o lado Humano de nosso ideal, o lado que fascina, cativa e inspira uma ternura esmagadora no coração do homem  e um desejo de proteger e de abrigar. David a descreve nos seguintes termos:
“Ela era uma fada, uma sílfide! Ela era mais do que humana para mim. Eu não sei o que ela era — tudo o que ninguém nunca vira e tudo o que todos sempre desejaram.
“Tinha a vozinha mais deliciosa, o risinho mais alegre, o mais agradável e mais fascinante jeitinho deste mundo, capaz de levar um jovem desnorteado a uma escravidão desesperançada.
“Ela era uma miniatura de um modo geral e extremamente desconcertante. Vê-la encostar as flores contra a covinha do queixo era perder toda presença de espírito e o poder da fala em débil êxtase”.
Seu jeito de menina, seus pequenos desejos e caprichos, a confiança infantil que nele depositava, sua absoluta dependência dos outros para supri-la eram um apelo irresistível ao coração nobre e cavalheiresco de David.
Ela o fascinava, pois ele escreve: “Tudo quanto pude fazer foi apenas sentar-me diante da lareira, com a chave da mala entre os dentes, incapaz de outra coisa qualquer a não ser pensar na apaixonante e adorável Dora, no seu jeitinho de menina, nos seus encantos, nos
seus olhos brilhantes. Que talhe e que semblante ela tinha, que jeito gracioso, variável e encantador!”.
Todavia, mesmo quando seus sentimentos em relação a Dora estão no auge, ele sente falta do conforto, da compreensão, da apreciação e da influência sagrada de Inês.
“Dora”, diz ele a Inês, “é bastante difícil — não diria que não possa confiar nela porque ela é a pureza e a verdade em pessoa — mas é bastante difícil — quase não sei como expressar isso. Sempre que eu não tinha você, Inês, para me aconselhar e dar sua aprovação no iní-
cio, parecia que iria enlouquecer e entrar em todo tipo de dificuldade. Quando afinal encontrava você (como sempre fiz), encontrava ao mesmo tempo a paz e a felicidade”.
No casamento, Dora também falhou como dona de casa. A casa deles estava em constante desordem:
“Não poderia desejar uma mulherzinha mais bonita do outro lado da mesa, mas certamente poderia ter desejado um pouco mais de espaço quando nos sentávamos. Não sei como, apesar de sermos apenas dois, sempre faltava espaço na casa, no entanto era suficiente
para tudo ficar perdido nela. O problema é que não havia lugar determinado para coisa alguma”.
Dora não sabia administrar as finanças da casa nem os empregados, por mais que se esforçasse. Também não sabia cozinhar, apesar de David ter lhe dado um dispendioso livro de receitas, que ela apenas usava como apoio para seu cachorrinho ficar em pé sobre ele.
Enquanto durou o casamento com Dora, David continuou a amá--la. Ela o fascinava e divertia, e ele sentia ternura pela mulher. Não era, porém, um amor completo nem lhe trazia uma felicidade realmente genuína, pois ele chegou a dizer:
“Amei com ternura minha esposa e fui feliz; mas a felicidade que vagamente antecipara não foi a felicidade que experimentei. Faltava alguma coisa. Um sentimento de infelicidade permeava minha vida como uma música triste ouvida à distância na noite”. Disse ainda:
“Preferia encontrar em minha mulher uma conselheira mais segura, de mais raciocínio, mais firmeza e mais caráter; teria desejado que ela pudesse amparar-me e ajudar-me, que tivesse o poder de preencher as lacunas que eu sabia existirem em mim”. 
Mais tarde, no decorrer da história, Dora morreu e David voltou-se para Inês. Casado com Inês, experimentou paz e felicidade verdadeiras,pois ela preencheu o vazio em sua vida. Era uma dona de casa maravilhosa e lhe deu verdadeira compreensão. Tiveram filhos e uma vida formidável no lar. Seu amor por Inês era santo, todavia, não era completo. 
Durante seu casamento com Inês, ele ainda tinha ternas lembranças de Dora que tocavam suas emoções. Ao pensar nela, ele escreve:
“A atração de Dora causou uma vigorosa impressão em mim… Olho para trás no momento em que escrevo; invoco a figura inocente que amei com ternura para sair das névoas e das sombras do passado e voltar sua delicada cabeça mais uma vez em minha direção”.
Em certa ocasião, sua filhinha foi correndo até ele com um anel em seu dedo, muito parecido com o anel de noivado que ele havia dado à Dora. O pequeno anel – uma faixa de flores “não-me-esqueças”1 com pedras azuis – lembrou-lhe tanto de Dora, que ele disse: “Houve uma agitação momentânea no meu coração, como uma dor!”.
Se Inês tivesse tido a feminilidade, o jeito adoravelmente humano e infantil de Dora e sua completa dependência do homem para aceitar proteção e orientação, David jamais teria cometido o erro de se casar com outra. Sua adoração por Inês teria se transformado em amor genuíno, em desejo de protegê-la e de abrigá-la. Por outro lado, se Dora tivesse tido a compreensão, a apreciação pelos mais altos ideais dele e a profundidade de caráter que Inês tinha e tivesse dado à casa deles uma aparência ordeira, a louca paixão de David por ela teria se transformado em adoração e amor eternos. Nenhuma das duas, infelizmente para elas , representa o conjunto Anjo-Mulher. Cada uma delas cometeu erros, as duas conquistaram e perderam David, mas cada uma merece ser imitada em certos pontos.
David Copperfield sentiu dois tipos distintos de amor por essas duas mulheres. Experimentou um tipo de amor por Inês durante todo o tempo. Porém, não foi bastante forte para levá-lo ao casamento. Apesar de esse tipo de amor dar maior paz aos homens e a felicidade mais verdadeira e duradoura, não é o que mais os atrai.
O tipo de amor que David sentiu por Dora era vigoroso, consumidor, intenso. Quando pensava nela, entrava no “reino das fadas”. Era um “cativo e um escravo”. Esse tipo de amor, porém, não era completo nem lhe trouxe verdadeira felicidade, pois ele disse: “Amava muito minha esposa e fui feliz; mas a felicidade que eu uma vez vagamente antecipara não foi a felicidade que desfrutei e faltava alguma coisa. Um sentimento de infelicidade permeava minha vida como uma música triste ouvida à distância na noite”.
Enquanto casado com Inês, ele experimentou paz e felicidade e a amava muito, mas ainda tinha ternas lembranças de Dora que lhe comoviam o coração. David Copperfield jamais teve a satisfação de amar completamente, pois seus sentimentos foram inspirados por duas mulheres diferentes. Nenhuma delas constitui o nosso ideal completo e, dessa forma, nenhuma delas pôde despertar o amor dele no sentido pleno.

DERUCHETTE
Um exemplo de mulher que tinha tanto as qualidades Angélicas como as Humanas é Deruchette, heroína do romance Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo:
“A presença dela ilumina a casa; quando se aproxima traz um alegre entusiasmo; passa e ficamos contentes; permanece por algum tempo e nos sentimos felizes. Não é divino ter um sorriso que, ninguém sabe como, tem o poder de aliviar o peso da enorme corrente que todos os seres viventes arrastam atrás de si? Deruchette tinha esse sorriso; podemos dizer que esse sorriso era a própria Deruchette.
“Deruchette tinha às vezes um ar de languidez enfeitiçante e certa travessura no olhar que eram completamente involuntários. Doçura e bondade reinavam inteiramente em sua pessoa; sua ocupação era apenas viver sua vida diária; suas realizações eram o conhecimento de algumas canções; seus dons eram resumidos a simples inocência; ela
tinha a tranquilidade graciosa da mulher indiana ocidental, misturada às vezes com irreflexão e vivacidade, com a provocação brincalhona de uma criança, mas com um traço de melancolia. Adicione a tudo isso uma testa larga, um pescoço flexível e elegante, cabelos castanhos, pele clara, ligeiramente sardenta devido à exposição ao sol, uma boca
um pouco grande, mas bem definida e visitada de vez em quando pôr um sorriso perigoso. Esta era Deruchette.”
Em outro ponto, Victor Hugo diz: “Ela, que um dia será mãe, permanece por longo tempo uma criança”. E quando ela se torna uma moça, “tem o frescor e a alegria de uma cotovia, fazendo toda sorte de ruídos suaves, murmúrios de indescritível prazer”. “Ela é, por assim dizer, um fio de ouro entrelaçado em teus pensamentos sombrios”. Maiores evidências de suas nobres qualidades são encontradas na proposta feita a Deruchette pelo jovem clérigo da história:
“Existe para mim uma única mulher sobre a terra. Você. Penso em você como em uma oração — você é glória para os meus olhos. Para mim, você é a santa inocência. Só você é suprema. Você é a forma viva de uma bênção”.

AMÉLIA
Outro exemplo na literatura de uma jovem que era tanto Angélica como Humana é Amélia, do romance Feira das Vaidades, de William Makepeace Thackeray .
Thackeray diz que Amélia é uma “pequena deusa do lar, bondosa, cheia de frescor, sorridente, ingênua, terna, a quem os homens são inclinados a adorar” . Mais adiante, ele a chama de “pobre, pequeno, terno coração”. Em outro ponto, ele lhe atribui “um coração bondoso, sorridente, terno e generoso”. Ele admite que outras pessoas talvez não
a considerassem bela:
“Na verdade, receio que seu nariz fosse muito curto e as bochechas muito redondas para ser uma heroína; mas seu rosto se cobria de um tom rosado saudável e seus lábios se abriam no mais refrescante dos sorrisos, e ela tinha um par de olhos que brilhavam com o mais cintilante e sincero bom humor, exceto quando se enchiam de lágrimas, e isso com demasiada frequência, pois a tolinha chorava a morte de um simples canário ou de um ratinho que o gato tivesse apanhado; ou no final da leitura de um romance, por mais banal que fosse!”.
Amélia tinha “uma vozinha doce, cheia de frescor ”. Era sujeita a “pequenos cuidados, temores, lágrimas, tímidas apreensões”. Tremia ante a rispidez. De um modo geral, ela era “excessivamente modesta, demasiado terna, muito confiante, frágil demais, extremamente
mulher” para qualquer homem conhecê-la sem se sentir obrigado a protegê-la e cuidar dela.
É interessante notar que nenhum desses autores deu qualquer importância à beleza natural. Amélia e Deruchette não eram jovens bonitas. Amélia, por exemplo, era gordinha e robusta, com um nariz muito imperfeito — “seu nariz era muito curto” e “as bochechas muito
redondas para ser uma heroína”. A pele de Deruchette era marcada por sardas e sua boca era grande demais para ser perfeita. Os autores estão tão longe de alegar beleza para essas jovens encantadoras que, além de mostrar as imperfeições mencionadas, não fazem qualquer tentativa de descrever a aparência externa delas. Inês e Dora eram mulheres bonitas. A atração de David deve ter sido por outras qualidades.  

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